quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

1 - O VELHO


Por Helena João
Eu adorava aquele velho. Só quando faleceu é que a minha mãe me disse a sua idade. Cento e cinco anos. Havia um acordo entre eles para não se desvendar o provecto número, mas ela não sabia as razões desse desejo. Era um velho de “carnes escorridas”, estatura acima da média e cabelos brancos, despenteados que há muito não viam barbeiro. O seu aspecto desgrenhado dava-lhe um ar místico, excêntrico

Vestia quase sempre uns jeans, à boca-de-sino, de um azul claro, já muito desgastado pelas lavagens, camisas de xadrez com uma t-shirt branca por baixo e um colete de franjas como o dos cowboys. É assim que o vejo nas minhas memórias. Já era um velho quando nasci. Talvez tivesse sido um velho a vida toda.
Quando era pequeno costumava ir passar férias à casa dele. Nessa altura ainda a minha avó era viva e o sorriso dele ainda iluminava o azul dos seus olhos. Os meus pais deixavam-me lá no início do mês de Julho para de lá me arrancarem – ao som de inúmeros protestos – em meados de Agosto. Nesse mês e meio eu era livre. Livre. Sem ruas para atravessar – cuidado Filipe, não me largues a mão. Sem a caixa de fósforos onde vivíamos na cidade – não jogues à bola dentro de casa. Sem as preocupações com os estranhos. Ali ninguém era estranho. Éramos só nós: o meu avô, a minha avó e eu. E o Sr. Jorge da mercearia, o Sr. Manuel da tasca, a D. Rosa da casa ao lado. Acho que foi por isso que me recusei sempre a comprar um apartamento. Já que tenho que viver na cidade, pelo menos tenho um pedacinho de campo, lá atrás no meu quintal. Só não tenho a D. Rosa e as suas tortas como vizinhas… Aquele velho, o meu velho, tirava-me da cama de manhã, quase cedo demais para ser considerado dia e lá partíamos. Para mim era mais uma aventura. Às vezes íamos em incursões pelo pinhal. O meu avô sabia o nome de todos os pássaros – escuta Filipe. Reconheces este som? Aquela é uma alvéola-branca. Às vezes íamos pescar para o rio – não cantes que assustas as trutas. A pesca é coisa de homem crescido, sempre achei. Todo aquele tempo em silêncio, só para nós e os nossos pensamentos. Ainda assim eu gostava de ir. Também eu ficava horas a segurar a cana de pesca, perdido nos meus pensamentos de criança.

Depois, na sua inevitabilidade, chegou o futuro. Entrei para a faculdade e nunca mais fui lá passar umas férias grandes. Essa entidade que é o tempo passou a controlar a minha existência. Os meus avós ainda ficaram naquela casa até ser só ele. Depois veio viver connosco, mas perdera a centelha. Manteve o mesmo aspecto excêntrico e a teimosia em não revelar a idade. Nunca soubemos porquê, mas também não interessa. Talvez vidas cheias como a dele não precisem de ser medidas por um número.

Agora, a poucas semanas de me tornar também eu avô pela primeira vez, lembro-me desse velho como nunca. A sua imagem, o seu sorriso, as aventuras que partilhámos, assaltam-me o pensamento todos os dias. O meu neto talvez não me ache tão excêntrico, mas estou empenhado em fazer com que me ache, pelo menos, tão companheiro.

                                                                                                                  FIM


Sem comentários:

Enviar um comentário