quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

3 - O CONTO


                                       Por Maria José Azevedo

«O astro rei mergulhava suavemente no mar, pintado de um vermelho alaranjado intenso o horizonte longínquo. Uma estrada de prata chegava com as ondas que batiam suavemente nos pés de Joana. O salpicar da água salgada, misturavam-se com o salgado das lágrimas que marejavam os seus olhos

O rapaz, pousou o livro, bocejou, esfregou os olhos e reclinou-se no sofá.  Esteve uns momentos a pensar no autor daquele livro inenarrável. Como era possível um livro tão chato, ter-se tornado num best-seller? Havia coisas que ele nunca iria compreender. Como aquela mania do José. Estava sempre a inventar inícios de contos, estava sempre a enviar e-mails aos colegas com propostas de actividades, num frenesim tremendo, como se o mundo fosse acabar amanhã. Ou aquela fixação da Mafalda por homens mais velhos de calças à boca de sino e que se perdiam na inevitabilidade do tempo e tinham epifanias coloridas. Arre, que sina a sua, ter amigos tão bizarros! Mas a lista não se ficava por aí. Até  a Aurora, imaginem, até a Aurora, passava tempos e tempos em divagações zen, onde se misturavam parentes  e cadáveres flutuantes no Ganges. Mas apesar de tudo, o que mais o incomodava era o silêncio dos que tinham tanto para dizer e estavam tão calados.  Nesse grupo, estava a Lilly, que andava sempre a remexer no seu baú interior à procura das verdades recônditas da sua alma. E a Manuela, que passava a vida a inventar vidas e destinos para as pessoas. E a Carmita, que só gostava de contos  iniciados por once upon a time, porque  era professora de inglês e uma professora de inglês que se preze, começa  os contos sempre assim. Pois é, havia coisas que ele nunca iria compreender.

De repente, sobressaltou-se! Era o dia 21 de Novembro e tinha um conto para entregar!  Colocou o portátil no colo e começou a escrever sobre os  seus peculiares amigos…


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