Por Maria José Azevedo
«O astro
rei mergulhava suavemente no mar, pintado de um vermelho alaranjado intenso o
horizonte longínquo. Uma estrada de prata chegava com as ondas que batiam
suavemente nos pés de Joana. O salpicar da água salgada, misturavam-se com o
salgado das lágrimas que marejavam os seus olhos.»
O rapaz, pousou o livro, bocejou, esfregou os
olhos e reclinou-se no sofá. Esteve uns momentos a pensar no autor
daquele livro inenarrável. Como era possível um livro tão chato, ter-se tornado
num best-seller? Havia coisas que ele nunca iria compreender. Como aquela mania
do José. Estava sempre a inventar inícios de contos, estava sempre a enviar
e-mails aos colegas com propostas de actividades, num frenesim tremendo, como
se o mundo fosse acabar amanhã. Ou aquela fixação da Mafalda por homens mais
velhos de calças à boca de sino e que se perdiam na inevitabilidade do tempo e
tinham epifanias coloridas. Arre, que sina a sua, ter amigos tão bizarros! Mas
a lista não se ficava por aí. Até a Aurora, imaginem, até a Aurora,
passava tempos e tempos em divagações zen, onde se misturavam parentes e
cadáveres flutuantes no Ganges. Mas apesar de tudo, o que mais o incomodava era
o silêncio dos que tinham tanto para dizer e estavam tão calados. Nesse
grupo, estava a Lilly, que andava sempre a remexer no seu baú interior à
procura das verdades recônditas da sua alma. E a Manuela, que passava a vida a
inventar vidas e destinos para as pessoas. E a Carmita, que só gostava de
contos iniciados por once upon a
time, porque era professora de inglês e uma professora de inglês que
se preze, começa os contos sempre assim. Pois é, havia coisas que ele
nunca iria compreender.
De repente, sobressaltou-se! Era o dia 21 de
Novembro e tinha um conto para entregar! Colocou o portátil no colo e
começou a escrever sobre os seus peculiares amigos…

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