Por Godiva
“Eu
adorava aquele velho. Só quando faleceu é que a minha mãe me disse a idade que
ele tinha, 105 anos. Havia um acordo entre ele e ela para não desvendar a sua
idade, ela não sabia as razões desde desejo. Era um velho de “carnes
escorridas”, estatura acima da média, cabelo branco despenteado que há muito
não via barbeiro, o seu aspecto desgrenhado dava-lhe um aspecto místico.”
De
facto hoje reconheço que adorava aquele velho. Mas nem sempre assim foi.
Entrou
na minha vida andaria eu pelos 15 anos . Há uns tempos que não percebíamos as
ausências da mãe, os telefonemas às escondidas, o seu repentino desabrochar
depois de meses de mágoa, choro e luto
pela sua história de amor que fracassara.
Desde
que o pai saíra de casa nunca mais a
víramos rir. Dedicara-se a nós de corpo e alma, e tanto eu como o meu irmão
acreditávamos que sempre assim seria até ao fim dos tempos. Até que naquela
manhã de domingo nos informou que um amigo muito especial iria lá a casa tomar
chá.
O
meu irmão saltou de contente, desejoso de dar movimento às nossas vida e eu nem
respondi. Bati violentamente a porta do meu
quarto e só dele saí quando a mãe me obrigou a vir dar-lhe um beijo. A
primeira impressão que tive foi de horror. Tudo nele me desagradou: o seu ar
envelhecido, o seu vestuário estranho (ninguém anda de calças e túnica branca
!!!!) a sua pose demasiado humilde (na minha opinião) para ser sincera.
A
minha mãe, uma mulher madura e forte, calejada já pelas agruras da vida, a seu lado parecia ( a meus olhos) uma menina
frágil e desprotegida. Causava-me repulsa !
Nessa
noite tivemos a maior discussão das nossas vidas. Gritei-lhe que se ele
entrasse lá em casa eu sairia (mesmo não tendo para onde ir), que jamais sairia
à rua com um homem daqueles (que diriam as minhas amigas ?) que ele era velho,
tão velho que ela parecia sua filha…
A
mãe tudo ouviu num silêncio magoado e
deste sofrimento que gratuitamente lhe infligi, arrependo-me cada dia da
minha vida.
Apesar
de toda a minha revolta adolescente , que
o tempo viria a dissipar, em breve se instalaria na nossa casa e foi com
o António que a paz e o equilíbrio de novo se instalou nas nossas vidas.
Foi
ele que na sua linguagem simples nos foi ensinando o verdadeiro significado de
palavras há muito já esquecidas: amor, alegria, família , fé, generosidade, tolerância .
Foi
ele que, no seu verdadeiro exemplo de humildade, fez de nós os adultos
responsáveis que hoje somos.
Regressamos
hoje da ultima viagem feita em conjunto!
Foi entre lágrimas de gratidão e saudade que
espalhamos as suas cinzas sobre as águas mansas do rio Ganges.
Um bonito conto que nos toca o coração e nos
ResponderEliminarfaz reflectir sobre as relações humanas.
Muito bom Godiva. Parabéns