quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

4 - EU ADORAVA AQUELE VELHO


                                                Por Godiva


“Eu adorava aquele velho. Só quando faleceu é que a minha mãe me disse a idade que ele tinha, 105 anos. Havia um acordo entre ele e ela para não desvendar a sua idade, ela não sabia as razões desde desejo. Era um velho de “carnes escorridas”, estatura acima da média, cabelo branco despenteado que há muito não via barbeiro, o seu aspecto desgrenhado dava-lhe um aspecto místico.”

De facto hoje reconheço que adorava aquele velho. Mas nem sempre assim foi.

Entrou na minha vida andaria eu pelos 15 anos . Há uns tempos que não percebíamos as ausências da mãe, os telefonemas às escondidas, o seu repentino desabrochar depois de  meses de mágoa, choro e luto pela sua história de amor que fracassara.

Desde que o pai saíra de casa  nunca mais a víramos rir. Dedicara-se a nós de corpo e alma, e tanto eu como o meu irmão acreditávamos que sempre assim seria até ao fim dos tempos. Até que naquela manhã de domingo nos informou que um amigo muito especial iria lá a casa tomar chá.

O meu irmão saltou de contente, desejoso de dar movimento às nossas vida e eu nem respondi. Bati violentamente a porta do meu  quarto e só dele saí quando a mãe me obrigou a vir dar-lhe um beijo. A primeira impressão que tive foi de horror. Tudo nele me desagradou: o seu ar envelhecido, o seu vestuário estranho (ninguém anda de calças e túnica branca !!!!) a sua pose demasiado humilde (na minha opinião) para ser sincera.

A minha mãe, uma mulher madura e forte, calejada já pelas agruras da vida,  a seu lado parecia ( a meus olhos) uma menina frágil e desprotegida. Causava-me repulsa !

Nessa noite tivemos a maior discussão das nossas vidas. Gritei-lhe que se ele entrasse lá em casa eu sairia (mesmo não tendo para onde ir), que jamais sairia à rua com um homem daqueles (que diriam as minhas amigas ?) que ele era velho, tão velho que ela parecia sua filha…

A mãe tudo ouviu num silêncio magoado e  deste sofrimento que gratuitamente lhe infligi, arrependo-me cada dia da minha vida.

Apesar de toda a minha revolta adolescente , que  o tempo viria a dissipar, em breve se instalaria na nossa casa e foi com o António que a paz e o equilíbrio de novo se instalou nas nossas vidas.

Foi ele que na sua linguagem simples nos foi ensinando o verdadeiro significado de palavras há muito já esquecidas: amor, alegria, família , fé,  generosidade, tolerância .

Foi ele que, no seu verdadeiro exemplo de humildade, fez de nós os adultos responsáveis que hoje somos.

Regressamos hoje da  ultima viagem feita em conjunto!

 Foi entre lágrimas de gratidão e saudade que espalhamos as suas cinzas sobre as águas mansas do rio Ganges.




3 - O CONTO


                                       Por Maria José Azevedo

«O astro rei mergulhava suavemente no mar, pintado de um vermelho alaranjado intenso o horizonte longínquo. Uma estrada de prata chegava com as ondas que batiam suavemente nos pés de Joana. O salpicar da água salgada, misturavam-se com o salgado das lágrimas que marejavam os seus olhos

O rapaz, pousou o livro, bocejou, esfregou os olhos e reclinou-se no sofá.  Esteve uns momentos a pensar no autor daquele livro inenarrável. Como era possível um livro tão chato, ter-se tornado num best-seller? Havia coisas que ele nunca iria compreender. Como aquela mania do José. Estava sempre a inventar inícios de contos, estava sempre a enviar e-mails aos colegas com propostas de actividades, num frenesim tremendo, como se o mundo fosse acabar amanhã. Ou aquela fixação da Mafalda por homens mais velhos de calças à boca de sino e que se perdiam na inevitabilidade do tempo e tinham epifanias coloridas. Arre, que sina a sua, ter amigos tão bizarros! Mas a lista não se ficava por aí. Até  a Aurora, imaginem, até a Aurora, passava tempos e tempos em divagações zen, onde se misturavam parentes  e cadáveres flutuantes no Ganges. Mas apesar de tudo, o que mais o incomodava era o silêncio dos que tinham tanto para dizer e estavam tão calados.  Nesse grupo, estava a Lilly, que andava sempre a remexer no seu baú interior à procura das verdades recônditas da sua alma. E a Manuela, que passava a vida a inventar vidas e destinos para as pessoas. E a Carmita, que só gostava de contos  iniciados por once upon a time, porque  era professora de inglês e uma professora de inglês que se preze, começa  os contos sempre assim. Pois é, havia coisas que ele nunca iria compreender.

De repente, sobressaltou-se! Era o dia 21 de Novembro e tinha um conto para entregar!  Colocou o portátil no colo e começou a escrever sobre os  seus peculiares amigos…


2 - OS CLAVADISTAS DE ACAPULCO

Por Célio Passos

Nos anos sessenta do secúlo passado, passou no cinema uns filmes-documentários intitulados “ O Mundo Cão”. Tratava-se de episódios filmados em toda a parte do mundo, de tradições, alguns bizarros, outros extraordinários, outros mostrando aspetos menos bons da raça humana, focando, no essencial, tradições, aspetos culturais ou religiosos, tudo isto passado ao celulóide nesses recuados anos.

Uma dos episódios e consequentemente imagens que me ficaram na memória foram dos “Clavadistas de Acapulco”.

Enquanto fazia horas para me deslocar a “La Quebrada”, local onde o espectáculo se desenrola, sentei-me numa esplanada, na maravilhosa baía de Acapulco, a comer uns tacos acompanhados de guacamole e a beber uma marguerita e a apreciar os multicoloridos vendedores ambulantes a vender sumos naturais e frutas artisticamente descascadas, enquanto deliciava-me a ouvir um mariachiari que a troco de uns pesos, tal como uma “juke box”, cantava a pedido do cliente.

Apanhei um autocarro, pintado com um homem aranha agarrado às traseiras do veículo, qual passageiro furtivo estendendo a sua teia até à frente do autocarro, como para garantir uma viagem em segurança. A viagem fez-se de portas e vidros abertos, única possibilidade dos clientes conseguirem efectuar a viagem, tal o calor do interior.

O espectáculo dos “Clavadistas” desenrola-se desde 1949, altura que um grupo amador começou a efectuar os primeiros saltos para a água. Vão subindo as rochas como cabritos monteses e a certas alturas, param e procedem a acrobáticos mergulhos na precisa altura em que uma onda repõe a água necessária no estreito canal, local para onde se lançam, permitindo mergulhos em relativa segurança.

O salto mais espetacular realiza-se à noite, onde um profissional dos mais experimentados, sobe a uma altura de 60 metros, faz uma oração à Virgem de Guadalupe, acende umas tochas, e em plena escuridão, o clavadista, precipita-se do alto da falésia como um pássaro de fogo, a uma velocidade final de 90 quilómetros por hora, mergulhando nas águas de La Quebrada. O restaurante onde se pode assistir a estes espectaculares e arrojados saltos e ao mesmo tempo apreciar uma a agradável refeição é também um lugar mítico. Por ali passaram muitas estrelas do cinema: Ava Gardner, Frank Sinatra, Cantinflas, Ray Milland, Fred Astaire, Ginger Rogers, entre muitas outras, assinalado a sua passagem apondo as suas assinaturas nas paredes.

Há mais de sessenta anos que este espectáculo se desenrola, e se tinha dúvidas se a continuidade estivesse garantida, esta foi desfeita quando depois do espectáculo os artistas passaram pelo restaurante para agradecer e receber mais alguns pesos pelos seus ousados saltos, perguntei a um jovem dos seus doze ano que também já efectua mergulhos, senão tinha medo; a resposta foi um categórico não, fiquei convicto que “O show must go on”.                                                                           Fim

1 - O VELHO


Por Helena João
Eu adorava aquele velho. Só quando faleceu é que a minha mãe me disse a sua idade. Cento e cinco anos. Havia um acordo entre eles para não se desvendar o provecto número, mas ela não sabia as razões desse desejo. Era um velho de “carnes escorridas”, estatura acima da média e cabelos brancos, despenteados que há muito não viam barbeiro. O seu aspecto desgrenhado dava-lhe um ar místico, excêntrico

Vestia quase sempre uns jeans, à boca-de-sino, de um azul claro, já muito desgastado pelas lavagens, camisas de xadrez com uma t-shirt branca por baixo e um colete de franjas como o dos cowboys. É assim que o vejo nas minhas memórias. Já era um velho quando nasci. Talvez tivesse sido um velho a vida toda.
Quando era pequeno costumava ir passar férias à casa dele. Nessa altura ainda a minha avó era viva e o sorriso dele ainda iluminava o azul dos seus olhos. Os meus pais deixavam-me lá no início do mês de Julho para de lá me arrancarem – ao som de inúmeros protestos – em meados de Agosto. Nesse mês e meio eu era livre. Livre. Sem ruas para atravessar – cuidado Filipe, não me largues a mão. Sem a caixa de fósforos onde vivíamos na cidade – não jogues à bola dentro de casa. Sem as preocupações com os estranhos. Ali ninguém era estranho. Éramos só nós: o meu avô, a minha avó e eu. E o Sr. Jorge da mercearia, o Sr. Manuel da tasca, a D. Rosa da casa ao lado. Acho que foi por isso que me recusei sempre a comprar um apartamento. Já que tenho que viver na cidade, pelo menos tenho um pedacinho de campo, lá atrás no meu quintal. Só não tenho a D. Rosa e as suas tortas como vizinhas… Aquele velho, o meu velho, tirava-me da cama de manhã, quase cedo demais para ser considerado dia e lá partíamos. Para mim era mais uma aventura. Às vezes íamos em incursões pelo pinhal. O meu avô sabia o nome de todos os pássaros – escuta Filipe. Reconheces este som? Aquela é uma alvéola-branca. Às vezes íamos pescar para o rio – não cantes que assustas as trutas. A pesca é coisa de homem crescido, sempre achei. Todo aquele tempo em silêncio, só para nós e os nossos pensamentos. Ainda assim eu gostava de ir. Também eu ficava horas a segurar a cana de pesca, perdido nos meus pensamentos de criança.

Depois, na sua inevitabilidade, chegou o futuro. Entrei para a faculdade e nunca mais fui lá passar umas férias grandes. Essa entidade que é o tempo passou a controlar a minha existência. Os meus avós ainda ficaram naquela casa até ser só ele. Depois veio viver connosco, mas perdera a centelha. Manteve o mesmo aspecto excêntrico e a teimosia em não revelar a idade. Nunca soubemos porquê, mas também não interessa. Talvez vidas cheias como a dele não precisem de ser medidas por um número.

Agora, a poucas semanas de me tornar também eu avô pela primeira vez, lembro-me desse velho como nunca. A sua imagem, o seu sorriso, as aventuras que partilhámos, assaltam-me o pensamento todos os dias. O meu neto talvez não me ache tão excêntrico, mas estou empenhado em fazer com que me ache, pelo menos, tão companheiro.

                                                                                                                  FIM